Convergencia, Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana
  Fundação do Campo Lacaniano
 
 






A 'CARÊNCIA' DO PAI NA NEUROSE, PSICOSE E PERVERSÃO

Apresentação

Os textos aqui reunidos sob a forma de publicação interna, foram apresentados na XI Jornada Anual da Práxis Lacaniana/Formação em Escola, O ‘carência’ do pai na neurose, psicose e perversão, organizada por nossa escola e auspiciada pela Fundação do Campo Lacaniano, nos dias 08 e 09 de novembro de 2008.
Trazemos, abaixo, a convocatória divulgada no folder de nossa Jornada, e que nos serviu de eixo para nossos trabalhos.

“Através das diferentes épocas, o que se entende por pai tem mudado bastante. A história nos mostra essas mudanças de costumes, seja em termos do Direito Romano, seja a respeito da influência do cristianismo, seja em termos dos dias atuais, com as filiações em relação à prova genética da paternidade, portanto uma verdade como biológica e que encontra apoio juridicamente em sua relação com o Estado e pode obrigar um homem a assumir uma paternidade, deixando excluída qualquer questão sobre o desejo e sobre o inconsciente.

Quando falamos do pai em psicanálise, do que se trata? O tema da função paterna situa uma via fundamental, tanto na clínica como no ensino da psicanálise. Diante das perguntas “O que é um pai?” “O que se pode dizer?” Nome, nomes, fantasma, sintoma, “a-versão”, impossível, suplência, sinthoma, etc. Isto aponta para que um sujeito precisa desenvolver articulações em relação ao inarticulável do desejo para relançar a questão em suas diferentes voltas, pois, como Lacan chega a dizer em seu percurso, só se pode prescindir do nome do pai na condição de se haver servido dele.

Num primeiro movimento, podemos dizer que, por sermos falantes e sujeitados ao sexo, há uma intervenção que se faz logicamente necessária, uma intervenção que é feita a partir de um lugar terceiro, um lugar Outro, como campo da linguagem. Trata-se de uma intervenção que tem a função de fazer entrar uma ordenação da palavra pelo símbolo, que faça entrar a lei que institui a cadeia significante, lei que constitui o sujeito, e que se chama intervenção do pai. O pai que intervém não corresponde ao pai natural, nem ao cristão, pelo batismo, nem ao biológico-científico, associado à jurisprudência do Estado moderno. O pai que intervém é aquele, cuja palavra funciona no campo da linguagem por estar fundada na existência do significante Nome do Pai.

Esta intervenção do pai, que faz entrar a lei simbólica, pode provir de qualquer um, cuja palavra sustente esta função no discurso. A função paterna, o significante Nome do Pai, entra, ou não, na cadeia de significantes, que constituirá um sujeito: quando entra, estrutura-se de diferentes maneiras, como nos mostram as neuroses; quando não entra, temos a psicose, ou seja, este significante Nome do Pai falta à cadeia significante.

Colocamos no título “carência” porque o sujeito está sempre em relação à articulação de duas faltas frente às quais a função paterna intervém: a falta frente ao significante, pois o significante vem do lugar terceiro, do Outro da linguagem, e a falta em relação ao sexo, que é anterior e diz respeito ao que o vivo perde por estar sujeito ao sexo. A articulação lógica do complexo de Édipo ao complexo de castração situa as diferentes maneiras como o sujeito se estrutura em relação às faltas e para cada um não deixará de haver carências e paradoxos em relação a elas.

É certo que a posição do sujeito dependerá de como o pai exerça sua função e é por isso que a função paterna se articula à interdição do incesto, que se faz na medida dos próprios efeitos da entrada, no inconsciente, da ordem simbólica. Portanto, a castração é um ato simbólico, que se dá por um agente, alguém que funcione sustentando esta função paterna, que é simbólica e, em relação ao objeto, que é imaginário. À medida que a intervenção paterna funciona, a proibição do incesto se apresenta, tirando o filho da possibilidade de estar como falo imaginário da mãe, no lugar da linguagem, tornando impossível que esta recupere seu produto. Em outras palavras, a intervenção proíbe que o Outro, enquanto lugar terceiro, campo da linguagem, seja completo. Esta tentativa de completude leva o sujeito a uma relação enlouquecida com a linguagem, por não operar a castração. Contudo, a estruturação do sujeito pela articulação do Édipo à castração não será sem carências e terá como conseqüência a posição do sujeito em relação à castração.

Então, para os seres falantes, a lógica da castração é uma operação real, introduzida pela incidência do significante paterno, em relação ao sexo. Isto faz com que a pergunta: “O que é um pai?” - embora seja impossível responder - tenha um valor de diferença, no que diz respeito às relações do macho com a fêmea, quando, para um ser falante, as falhas e as faltas que o afetam, enfim, as carências, sejam articuladas discursivamente, num trabalho de análise”.