|
O
REAL NA CLÍNICA PSICANALÍTICA
Apresentação
Os textos aqui reunidos
sob a forma de publicação interna, foram apresentados
na XII Jornada Anual da Práxis Lacaniana/Formação
em Escola, O real na clínica psicanalítica, organizada
por nossa escola e auspiciada pela Fundação do Campo Lacaniano,
nos dias 19 e 20 de setembro de 2009.
Trazemos, abaixo, a convocatória divulgada no folder de nossa
Jornada, e que nos serviu de eixo para nossos trabalhos.
“Desde
o início do ensino de Lacan, os três registros estão
presentes. Em sua conferência de 8 de julho de 1953, proferida
na Sociedade Francesa de Psicanálise, o título O Simbólico,
o Imaginário e o Real atesta este fato. Nesta conferência,
situa seu ensino sob o signo do retorno a Freud, o que sustenta durante
seu longo percurso, acrescentando o real e o objeto a como suas invenções.
Se partimos do estádio do espelho e vamos até a topologia
e o tempo como termo, verificamos que a articulação dos
três registros faz parte da construção e da elaboração
que Lacan entrelaça ao longo de seus Seminários e Escritos.
Diferentes dimensões da noção do real em Lacan
emergiram ao longo de seu percurso. Os títulos de alguns dos
trabalhos que já foram inscritos para a Jornada, anunciam o leque
de retomadas possíveis em relação ao real: “O
traumático e o real”; “A angústia como sinal
do real irredutível na experiência da análise”;
“O fantasma como máscara do real”; “Volteando
o real lacaniano”; “O real do traço unário”,
etc.
Haverá ainda duas mesas, já costumeiras em nossas Jornadas
Anuais: uma, que reúne, em relação a um tema comum,
psicanalistas das quatro Escolas Lacanianas, que constituem a Comissão
de Enlace Local do Rio de Janeiro do Movimento Lacaniano para a Psicanálise
Freudiana, que este ano terá como tema: “O que é
rejeitado do simbólico reaparece no real”. A outra mesa
será composta por profissionais de diferentes áreas do
saber, e, este ano, o tema será: “O real das tragédias
de nosso tempo”. Esta mesa será composta por representantes
do saber das áreas de direito, educação, assistência
social e psicanálise.
O real começa a entrar como dimensão radical, para Lacan,
a partir do momento em que se encontra com o termo Verwerfung, em Freud,
o que o leva a dizer que o que é rejeitado no simbólico
reaparece no real. A partir do Seminário III, ao invés
de rejeição, passa a usar o termo foraclusão.
A partir do Seminário XIII, sobre o objeto da psicanálise,
o real passa a ser situado como aquilo que só se atinge pela
escrita, como na lógica matemática, que Lacan chama de
Ciência do Real. Nesse sentido, o real como impossível
é o que só pode ser discernido logicamente. Como impossível,
por um lado, é aquilo que deve ser excluído, para que
um discurso adquira coerência lógica; por outro lado, o
impossível vai precisar do apoio do nó borromeano para
que algo dele possa ser demonstrável.
A partir do Seminário XX, 1970, Lacan dará cada vez mais
prioridade à amarração dos três registros,
e também ao real, porque, na construção do nó
borromeano, o real é o três, o gozo real, a partir do qual
se faz o atamento do nó, ou seja, do R S I. Nesse momento, trata-se,
para Lacan, de definir algo de radical na experiência de análise,
a partir da dimensão três, que põe em funcionamento
o a, desta vez, como calço do nó borromeano.
Diz Lacan no Seminário XXI: “É que há três
dimensões do espaço habitado pelo ser falante, e essas
três diz-mensões tal com as escrevo, se chamam o Simbólico,
o Imaginário e o Real. Estes, não são, em absoluto,
como as coordenadas cartesianas, ou seja, não é porque
há três - não vão se equivocar. As coordenadas
cartesianas correspondem à velha geometria. É porque se
trata de um espaço, o meu, tal como o defino por estas três
dimensões, trata-se de um espaço cujos pontos determinam-se
de uma maneira muito diferente. E é o que tentei (como talvez
isso superava meus meios, talvez isso me deu a ideia de ter deixado
cair ali a coisa), é uma geometria cujos pontos – para
aqueles que estavam aqui no ano passado – cujos pontos se determinam
pelo calço daquilo que talvez vocês recordem, e que chamei
meus anéis de fio.
Voltarei a explicar-lhes isto melhor ao longo do Seminário, mas
faço observar que esta noção parte de outra maneira
de operar no espaço, com o espaço que realmente habitamos...
se o inconsciente existe. Isto parte de outra maneira de considerar
o espaço; e ao qualificar essas três dimensões,
entrelaçando-as aos termos que inclusive pareceu que precisamente
diferenciei, Simbólico, Imaginário e Real, o que estou
antecipando é que se os fez equivalentes. É uma questão
que Freud coloca no final da Interpretação dos Sonhos:
se o que ele chama realidade, a que ele qualifica de psíquica,
o que ela pode ter a ver com o real?”
Portanto, Lacan, ao nos propor o espaço lacaniano e situá-lo
dentro do espaço vetorial – que não é o espaço
cartesiano, nem euclidiano, nem a adição do espaço
newtoniano, tampouco o espaço transcendental da estética
kantiana, embora não os deixe de contar, em suas diferenciações
– funda um espaço próprio para os seres falantes
em relação ao inconsciente, para que seja possível
articulá-lo, não em sua ambiguidade, que tende ao espaço
cartesiano e ao discurso do mestre, mas em sua emergência”.
|
|
|