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O
TRATAMENTO DA VIOLÊNCIA NA PSICANÁLISE
Apresentação
Os textos aqui reunidos
sob a forma de publicação interna, foram apresentados
na XIII Jornada Anual da Práxis Lacaniana/Formação
em Escola, O tratamento da violência na psicanálise, organizada
por nossa escola e auspiciada pela Fundação do Campo Lacaniano,
nos dias 06 e 07 de novembro de 2010.
Trazemos, abaixo, a convocatória divulgada no folder de nossa
Jornada, e que nos serviu de eixo para nossos trabalhos.
“Existe
alguma maneira de livrar a humanidade da guerra? É possível
um avanço que coloque o homem à prova das psicoses, do
ódio e da destrutividade? Perguntou Einstein a Freud em “Por
que a guerra?”.
É certo que nossa moral sexual civilizada incrementa a doença
nervosa moderna. O antagonismo entre as exigências pulsionais
e as restrições da civilização é
irremediável, e é certo que ao processo de civilização,
devemos não só o melhor daquilo que nos tornamos, mas
também daquilo de que padecemos.
Quanto
às exigências pulsionais humanas, são, principalmente,
de dois tipos: as que tendem a preservar e a unir, chamadas eróticas
ou sexuais, e as que tendem a destruir e matar, que agrupamos como pulsão
de morte ou destrutiva.
Nenhuma
dessas pulsões é menos essencial do que a outra; os fenômenos
da vida surgem da ação confluente e da mutuamente contrária
a ambas. Uma pulsão de um tipo não pode trabalhar isolada
da outra, são amalgamadas. Assim, a pulsão de autopreservação
é de natureza erótica, não obstante, deve ter à
sua disposição a agressividade para atingir o seu propósito.
Portanto,
quando os homens são incitados à guerra, põem todo
um leque de motivos para se deixarem levar: uns nobres, outros vis,
alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. Entre eles,
certamente, está o desejo de agressão e destruição:
as incontáveis crueldades que encontramos na história
e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e força.
A
satisfação desses impulsos, naturalmente, é facilitada
por sua mistura com outros motivos de natureza idealista. Quando lemos
sobre atrocidades do passado, na maioria das vezes, é como se
os motivos idealistas servissem apenas de desculpa para os desejos destrutivos.
Por exemplo, nas crueldades da inquisição, é como
se os motivos idealistas tivessem surgido num primeiro plano na consciência,
enquanto os destrutivos, que lhes emprestavam reforço, eram inconscientes.
Nesse
ponto, essas desculpas podem ser intermináveis, se não
se leva em conta algo que Freud situa aí, ou seja, a perda que
está na partida da constituição do sujeito do inconsciente,
já que não há possibilidade alguma de abordar diretamente
nem a satisfação nem o acesso ao objeto sexual.
Aí,
portanto, por uma transposição, Freud coloca o corte como
entrada do sujeito no simbólico, o mito como ponto lógico
do nascimento de uma civilização e o sintoma referido
à renuncia e à satisfação substitutiva para
as exigências pulsionais, que dependem da atuação
de complexos ideativos inconscientes, portanto, reprimidos e de conteúdo
sexual.
A
psicanálise, portanto, introduz uma novidade ética em
relação ao sentimento de culpa inconsciente, que diz dos
preceitos do senso comum encarnados, principalmente, pelos valores judaico-cristãos
e pelos elementos próprios de uma ética da razão
pura de Kant. Trata-se de um laço social inédito, ordenado
pelo discurso do analista, uma vez que o descobrimento do inconsciente
produz uma subversão a respeito do laço social entre os
falantes”.
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